História e Patrimônio

A Igreja e Convento de São Francisco,

localizados no Pelourinho, formam um dos mais importantes conjuntos religiosos e artísticos do Brasil. Sua história está profundamente entrelaçada com a própria formação de Salvador desde o fim do século XVI, quando os franciscanos chegaram para acompanhar os primeiros passos da nova capital colonial.

Ao longo de mais de quatro séculos, o convento foi centro de formação intelectual, ação social, produção cultural, vida espiritual e presença marcante no cotidiano da cidade.

1.

Uma História que se Confunde com Salvador

A presença franciscana em Salvador remonta a 1587. Naquele tempo, quando a cidade ainda se formava, os filhos de São Francisco se instalaram ao lado de outras ordens religiosas como carmelitas e beneditinos. Desde então, marcaram profundamente a vida política, social e religiosa da capital.

Entre seus feitos:

  • Foram voz do sentimento de autonomia nacional,
    especialmente através de Frei Vicente do Salvador, considerado o primeiro historiador do Brasil.
  • Participaram da resistência à invasão holandesa,
    tornando o convento um núcleo de mobilização.
  • Atuaram na colonização através da evangelização indígena,
    acompanhando o projeto colonial de aldeamentos.
  • Assumiram, como toda sociedade da época, a contradição da escravidão negra,
    compartilhando a estrutura vigente.
  • Formaram grandes nomes da cultura baiana, como:
    Frei Vicente do Salvador, Frei Rafael da Purificação, Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão, Frei Bastos, o “Bossuet brasileiro”.

Além disso, o convento:

  • Foi centro caritativo e assistencial,
    ajudando pobres e necessitados.
  • Contribuiu para o desenvolvimento urbano,
    sobretudo na liderança de Frei Hildebrando Kruthaup.
  • Tornou-se núcleo importante para a classe operária
    com o Círculo Operário da Bahia.
  • Impulsionou o cinema e o jornalismo católico no Nordeste,
    com a Editora Mensageiro da Fé e o Amigo da Infância.

Assim, a história da cidade passa pelo Convento de São Francisco, e o título de Patrimônio Nacional reflete essa íntima ligação com o povo brasileiro.

2.

O Status de Patrimônio Nacional

O tombamento oficial ocorreu em 1937. Mas muito antes disso, a igreja já era reconhecida como patrimônio do povo. Uma tradição famosa conta que, quando frades alemães chegaram no século XIX e desejaram retirar as talhas douradas — considerando-as excessivas para a espiritualidade franciscana — o povo se opôs veementemente:

“A Igreja não é dos frades;
é do povo de Salvador.”
Essa reação demonstra a dimensão afetiva e simbólica do templo, que ultrapassa limites religiosos e pertence ao imaginário da cidade.

3.

Quanto Tempo Tem a Igreja de São Francisco?

A data oficial de fundação é 1587, uma marca jurídica e canônica. Porém:

  • Já existia antes uma capela dedicada a São Francisco, construída por um religioso espanhol em data incerta.
  • Entre 1686 e os anos seguintes, deu-se a grande ampliação do convento, que praticamente configurou o atual edifício.

Em 1708, foi lançada a pedra fundamental da atual igreja, maior e mais imponente que a anterior, com novo alinhamento de fachada.

Assim, o conjunto possui camadas de construção que se somam ao longo dos séculos.

4.

A Arquitetura dos Conventos Franciscanos Coloniais

Os conventos franciscanos do período colonial combinam:

  • Funcionalidade comunitária
  • Espiritualidade franciscana
  • Esplendor barroco para o culto

Seguem uma estrutura tradicional:

Portaria

Grande salão de entrada, decorado com altar, pinturas no teto, quadros e azulejos. É o ponto de contato entre o convento e o mundo externo.

Sala do Capítulo

Local das reuniões da comunidade religiosa, decorada com altar, talhas e pinturas, com porta que se abre para o claustro.

Celas e Enfermaria

No andar superior ficavam as celas dos frades e uma enfermaria destinada aos religiosos.

Varandas e Biblioteca

A biblioteca, geralmente sobre a parte posterior da igreja, ocupava papel essencial na formação intelectual.

Claustro

Lugar central e simbólico do convento, com arcos, azulejos, espaço para caminhada, oração e sepultamento de frades.

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A Igreja – Seus Destaques Arquitetônicos e Artísticos

A Igreja de São Francisco é uma das mais ricas expressões do barroco brasileiro.

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Imagens de Grande Valor Artístico

A imagem de São Pedro de Alcântara é considerada por muitos especialistas como a mais perfeita obra escultórica do templo.
Conta-se que, em 1859, o imperador Dom Pedro II quis levá-la para a Corte, mas os frades recusaram.

Outras imagens importantes:

  • Santo Antônio
  • Nossa Senhora da Conceição
  • Sant’Ana

Possivelmente obras de Manuel Inácio da Costa.

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O Convento – Suas Partes Principais

Portaria

Construída entre 1749–1755, com azulejos representando santos eremitas e oito quadros a óleo de temática franciscana.
O teto é riquíssimo, com medalhões de papas franciscanos, santas e santos da Ordem.

Sala do Capítulo

Pequena, simétrica, com altar de N. Sra. da Saúde, 32 pinturas de virgens, estrelas decoradas e painéis da Ladainha Lauretana.

Biblioteca

Com 21 estantes, talhas douradas, altar de São Boaventura, pinturas alusivas à sabedoria e nomes importantes da intelectualidade franciscana.

Claustro

Chamado de “um sermão de azulejos”, com 36 arcos.
Os 37 painéis de azulejos foram doados por D. João V entre 1743 e 1746, inspirados na obra de Otto van Veen.
Cada ala tem um tema:

  • A fugacidade da vida e a morte
  • A ambição do dinheiro e a virtude
  • O contraste entre virtudes e vícios
  • As virtudes humanas no cotidiano

O claustro superior traz azulejos apenas decorativos: cenas de caça, mar, batalhas, viagens e festas.

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Datas Importantes

Século XVI

  • 1587 – Fundação oficial do convento.
  • 1590 – Concessão da “ordinária”.
  • 1595 – Chegada da imagem de Santo Antônio.

Século XVII

  • Profanação holandesa em 1624
  • Instalação de enfermaria
  • Início dos estudos de filosofia e teologia
  • Autonomia da Custódia
  • Abertura da nova construção em 1686

Século XVIII

  • 1708 – Pedra fundamental da nova igreja
  • 1713 – Bênção da igreja
  • 1720 – Frontispício
  • 1746–1749 – Azulejos do claustro
  • 1752 – Azulejos da Via Sacra
  • 1755 – Conclusão da portaria
  • 1758 – Lâmpada de prata

Século XIX

  • Fechamento dos noviciados
  • Declínio da província
  • Chegada dos franciscanos alemães (1893)

Século XX

  • 1930 – Crucifixo do altar-mor
  • 1937 – Tombamento
  • Obras de restauração
  • Década de 1990 – Grandes reformas estruturais

Campanha de Restauração

A Igreja e Convento de São Francisco, em Salvador, são testemunhas silenciosas de séculos de fé, arte e da própria identidade do povo baiano. Cada detalhe da arquitetura e cada fragmento de arte sacra contam uma história que pertence a todos nós.